Lapig/UFG coordena georreferenciamento de terras devolutas no território Kalunga
Projeto Raízes Kalungas reúne TJGO, UFG e Funape para garantir precisão técnica e avançar na regularização fundiária quilombola em Goiás

O Laboratório de Sensoriamento Remoto e Geoprocessamento (Lapig), da Universidade Federal de Goiás (UFG), é o responsável técnico pelo georreferenciamento das terras devolutas estaduais localizadas no território Kalunga, no nordeste goiano. A iniciativa integra o Projeto Raízes Kalungas – Justiça e Cidadania e foi oficialmente formalizada no dia 20 de fevereiro de 2026, com a assinatura do Contrato de Serviço nº 69/2025, firmado entre o Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO), a UFG e a Fundação de Apoio à Pesquisa (Funape).
A solenidade ocorreu nesta terça-feira (20), no Salão Nobre da Presidência do TJGO, com a presença de autoridades do Judiciário, da administração pública estadual, da UFG, da Funape e representantes da comunidade Kalunga. O projeto prevê, nesta primeira etapa, o mapeamento das glebas Sossego, Diadema e Teresa, localizadas nos municípios de Cavalcante e Teresina de Goiás.
Tecnologia de ponta e rigor técnico

A coordenação do trabalho técnico está sob responsabilidade do vice-coordenador do Lapig, professor Manuel Eduardo Ferreira, que destacou a complexidade e o rigor metodológico do processo de georreferenciamento.
“Esse trabalho atenderá integralmente às normas técnicas do INCRA, utilizando imagens aéreas obtidas por aeronaves tripuladas, drones e levantamentos de campo com tecnologia GNSS (padrão geodésico), fundamentais para a determinação precisa dos pontos e limites das glebas”, explica Manuel.
Segundo o professor, o projeto envolve o levantamento detalhado de todo o contorno das áreas, considerando diferentes tipos de confrontações, como limites naturais (ex. rios e topo de morros) e propriedades já tituladas.
“Vamos elaborar um memorial descritivo contendo o georreferenciamento de cada gleba. Estes limites foram demarcados há cerca de 20 anos, com tecnologias menos precisas. Agora, faremos um refinamento desse georreferenciamento, com erro máximo de até 50 centímetros, conforme exigido pelas normas técnicas”, ressalta.
Sensoriamento remoto, LiDAR e trabalho de campo
Além das atividades de campo, o projeto contará com um intenso trabalho de gabinete e laboratório, realizado no Lapig, envolvendo interpretação de imagens aéreas e satélite, geoprocessamento e análise espacial. Serão utilizados sensores imageadores do tipo RGB e multispectral, além da tecnologia LiDAR, a qual permite identificar elementos na superfície, mesmo quando encobertos pela vegetação.
“O uso do laser facilitará a identificação de elementos naturais ou humanos contidos nos memoriais descritivos realizados à época da demarcação, melhorando significativamente a precisão do levantamento, inclusive em áreas com cobertura vegetal mais densa”, explica Manuel Ferreira.
O trabalho também inclui a identificação de benfeitorias, como edificações e outras estruturas visíveis nas imagens aéreas, a serem devidamente registradas e georreferenciadas.
Reconstrução histórica e segurança jurídica
Outro eixo central do projeto é o levantamento documental, cartográfico e histórico das glebas. A equipe irá reconstruir todo o processo de criação e demarcação das áreas, desde os decretos iniciais até registros em cartórios e documentos vinculados a órgãos estaduais, como a Secretaria de Agricultura e Pecuária de Goiás.
O cronograma prevê nove meses de execução, com três meses dedicados a cada gleba, ao final dos quais serão entregues ao INCRA todos os produtos técnicos necessários para subsidiar os processos de regularização fundiária.
Justiça social e compromisso institucional

Durante a solenidade, o presidente do TJGO, desembargador Leandro Crispim, destacou que o Projeto Raízes Kalungas representa o enfrentamento de uma dívida histórica com a maior comunidade quilombola do país. Ele destacou ainda que a contratação do Lapig, da UFG, responsável pela parte técnica do trabalho, foi baseada em uma análise técnica e jurídica criteriosa, compatível com a complexidade do serviço e alinhada às exigências legais. A reitora da UFG, Sandramara Matias Chaves, reforçou o papel da universidade pública na promoção da justiça social e no direito à terra.
A iniciativa é considerada um marco para o Estado de Goiás, ao inaugurar procedimentos de georreferenciamento de terras devolutas com foco na titulação em favor de comunidades quilombolas, contribuindo para a redução de conflitos fundiários, o fortalecimento da cidadania e a valorização do território Kalunga.
(Texto com informações da matéria produzida por Carolina Dayrell; Fotos por Agno Santos. Ambos do Centro de Comunicação Social do TJGO)